Tito
Rosemberg: uma aula de vida através de expedições
Fotos: Tito Rosemberg
Jornalista, fotógrafo, documentarista e guia ecológico,
Tito Rosemberg, que já
conheceu 66 países, mostra que seu espirito de aventura
o levou a experiências off-road da grandeza do Camel Trophy,
como exemplo. Confira nesta primeira parte da entrevista um
pouco da sabedoria de vida de Tito Rosemberg, que fala sobre
culturas, off-road, meio ambiente e muito mais...
Planeta Off-Road: Em todas suas viagens pelo mundo, o
que mais marcou?
Tito Rosemberg: A percepção de que nós,
os quase seis bilhões de habitantes do planeta Terra,
no fundo, somos todos iguais. Tuaregs e nordestinos, Kaiapó
e esquimó, turcos e mineiros. Jipeiros e artistas plásticos.
Percebi no mundo inteiro a necessidade dos seres humanos de
desenvolver suas individualidades, mas sempre batendo de frente
com o desejo da "sociedade", de que nos enquadremos
dentro dos parâmetros muito restritos do que se convencionou
chamar de "normalidade". As pessoas mais criativas
de todas as culturas, são geralmente as mais discriminadas.
O aventureiro, que geralmente segue os caminhos menos viajados,
tem que vencer não só os desafios que o mundo
externo - florestas, desertos, montanhas - lhe apresentam, mas
também superar os dogmas internos, sedimentados por milênios
de preconceitos, que nos levam a viver passivamente.
Planeta Off-Road: O que mais lhe chama a atenção
quando se fala em diferenças culturais nos diversos países
que conheceu?
Tito Rosemberg: A constatação de que não
existe o que se chama de "verdade". O que num lugar
é proibido, em outro é estimulado. O que é
uma "vergonha" num lugar, pode ser um ato "respeitável"
noutro lugar. O que é normal aqui, é absolutamente
anormal noutra cultura. Entretanto, com o surgimento da televisão
e da antena parabólica, a comunicação uniu
de maneira definitiva todas as culturas do planeta. Os tuaregs
no meio do deserto do Sahara podem estar assistindo em tempo
real ao jogo do FLA X FLU, no Maracanã. Os massacres
na Argélia chegam em nossas casas, através das
telinhas, quase que instantaneamente ao incidente. Os grandes
vazamentos de petróleo, bem como todas as destruições
ambientais, estão sendo levados ao conhecimento de bilhões
de pessoas. E as reações são também
planetárias. Os brasileiros não podem mais queimar
a Amazônia sob o risco de serem censurados pelos olhos
chocados do mundo inteiro, e assim por diante.
Planeta Off-Road: E sobre as diferenças no off-road?
Como é o esporte nestes países
Tito Rosemberg:
Nos países onde a renda é menos concentrada,
e o dinheiro é distribuído por uma parcela maior
da sociedade, há obviamente mais práticas esportivas
motorizadas. O 4X4 é uma atividade quase que exclusiva
da classe média para cima, seja no Brasil ou no Japão.
A grande diferença é que enquanto no Brasil somos
uma classe média de três ou quatro indivíduos,
nos Estados Unidos há milhões de pessoas na tal
de classe média, e por isto o 4X4 está muito mais
difundido. Numa escala menor em relação aos USA,
a Europa também está sendo palco de um grande
desenvolvimento no uso de veículos tracionados, não
somente na prática de esportes, mas também nas
viagens de longo curso e nas aventuras individuais de final
de semana. Em todos os cantos do mundo, o ser humano precisa
de aventura, e, já que a vida sedentária vai contra
seus sonhos de mais emoção, o 4X4 tem se tornado
uma excelente válvula de escape para um número
crescente de pessoas sedentárias em seu cotidiano. Nota-se
nos países desenvolvidos (e o Brasil não está
neste grupo), uma preocupação muito grande dos
jipeiros e motociclistas off-road, de, não somente reduzir
o impacto ambiental de suas aventuras, mas também de
aliar-se aos grupos ecológicos em campanhas de conscientização
ambiental. Nos últimos anos, o crescimento da preocupação
com o meio ambiente foi muito maior do que o número de
novos jipeiros, fazendo crescer uma visão, parcialmente
correta, do 4X4 como uma atividade predatória. Os ecologistas
de uma forma geral, e no mundo inteiro, consideram os offroadistas
como vândalos poluidores. Por esta razão, há
por todos os cantos do mundo, e cada vez mais organizado, um
acirrado movimento anti-4X4. Neste confronto, cabe aos jipeiros
desarmar esta bomba relógio, aceitando os ambientalistas
como parceiros na preservação da natureza. Para
que haja esta aceitação, cabe aos amantes do 4X4,
familiarizarem-se com as regras da prática sustentável
de esportes na natureza, e desenvolver atividades que venham
a recompor os ecossistemas que porventura já estejam
depredados, seja pelos jipeiros ou por outros agentes. Mesmo
que a culpa não seja nossa, cabe a nós, que podemos
chegar com nossos veículos onde o poder público
raramente chega, de nos preocuparmos com a correção
dos danos ambientais, unindo o agradável ao útil.

Planeta Off-Road:Qual é o fato que torna uma expedição
de jipe inesquecível?
Tito Rosemberg: Toda expedição é
inesquecível, assim como os mestres de quem gostávamos
quando crianças. De jipe ou de veleiro, de esqui ou bicicleta
e até à pé, uma viagem, por mais simples
que seja, é como um curso de pós-graduação
em viver. O jipe serve para quem está com pressa e quer
levar um monte de tralha, sejam câmeras, pranchas ou panela
de pressão. À pé ou de bicicleta, você
vê, cheira e sente o verdadeiro sabor do local visitado.
Num veículo, o distanciamento entre o viajante e a natureza
e cultura local é muito maior, mas pode ser compensado
por um ritmo lento na expedição e maior tempo
dedicado ao convívio com as populações
tradicionais. Muita gente viaja para marcar mais um país
no passaporte, como os pistoleiros faziam no punho de seus revólveres
depois de matar mais uma vítima. Se viajar por si só
fosse um fator de crescimento filosófico e espiritual,
cada avião da varig que chegasse de fora traria de volta
centenas de pessoas iluminadas, o que sabemos não é
verdade. Para que uma viagem seja realmente proveitosa, há
que se estabelecer um vínculo forte entre o viajante
e a cultura local, os elementos naturais e até as características
geográficas por onde passamos. Do contrário, poderemos
estar somente trocando o documentário da televisão
pelo pára-brisas do veículo, uma experiência
passiva, um olhar raso.
Planeta Off-Road: O que é atravessar um deserto?
Tito Rosemberg: Através dos séculos, muita
gente boa tem ido procurar o autoconhecimento nos desertos.
Entre eles, Buda, Jesus Cristo e Moisés. Por sua característica
de quase total nudez vegetal, o deserto é uma experiência
limpa, nítida, onde nossas mentes podem dedicar-se à
contemplação sem ser poluída por excessivos
impulsos externos. O ar limpo, silencioso e seco dos desertos
permitem ao viajante, à qualquer momento do dia, poder
enxergar longe, tomar consciência de sua vastidão,
e da nossa pequenez diante das forças da natureza, ali
explicitadas sem camuflagem alguma. O deserto é uma sensação
que deveria ser experimentada por mais gente, pois apesar de
sua aparente simplicidade, a convivência com ele nos faz
perceber as sutilezas da natureza, das pedras, da areia e dos
ventos, e de nossas almas diante de uma poderosa, porém
serena, vivência. Quem tem medo do deserto deve também
ter medo de ver-se por dentro. Além do mais é
uma ótima forma de fazer-nos reconhecer o espetáculo
que é uma floresta ou um jardim. Vivemos no paraíso,
apesar de poucos perceberem.
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