"Foi bão tumém!" por Celso
Travassos
Acordei às 7h. O Pequeno já estava acordado, vendo desenho na televisão, pijama de flanela, cabelo atrapalhado. Ninguém mandou matricular o bichinho no turno da manhã!
Chovia. Muito. Chuva de um barulho só, caindo em pé, sem vento. Imaginei o dia: os primos junto com o pequeno, detonando os bibelôs da casa, a mulher irritada com aquilo, a filha adolescente com cara de tédio. A disputa pelo controle remoto da televisão, a grande dúvida: TV À cabo ou DVD?... O sorteio para ver quem vai à locadora - claro que seria eu... Ia ser um
domingo longo.
O Zedu ligou: Vou até aí, vamos ajuntar os meninos que dá menos trabalho...- realmente ia ser um longo domingo, pensei, com o barulho contínuo e forte da chuva caindo. Olhei da varanda o cachorro encolhido com o mesmo ar desolado que eu devia estar.
Contei para o pequeno que os meninos do Zé estavam vindo...A idéia veio dele: Ôba! Vamos andar de jipe na lama, pai?! - Os olhinhos brilhando em uma cara de quem procurava um cúmplice para uma travessura. Pensei na cabine do jipe, capota de lona é igual a guarda-chuva velho: finge que protege, mas no fundo nos molhamos do mesmo jeito.
O barulho da pesada chuva e a perspectiva do domingo desperdiçado me animaram. Topei. A mulher ainda dormia e iria continuar assim com o barulho da chuva no fundo. A filha também dormia pesado, descansando da "balada" do sábado. Preparei rapidamente algumas coisas. O Zé chegou e eu já estava pronto, não dando tempo nem para os cumprimentos.
- Tá doido? - ele falou.
- Tô. - respondi - Acho que sempre fui.
Ele sorriu e entramos no jipe, rumo de Macacos, que na realidade se chama São Sebastião das Águas Claras. O trecho é pequeno e não oferece grandes perigos. Eu e o Zé na frente, as três crianças atrás. O jipe deslizava na lama e a meninada agarrada como podia lá trás, com os olhinhos arregalados - dava para ver que a adrenalina deles estava a mil, apesar de estarmos devegar e seguindo com segurança. Para eles era uma grande aventura. Seguimos com o jipe dançando na lama
e a água entrando como devia, na cabine. Chegamos em Macacos devidamente enlameados, úmidos e felizes.
Sentamos em uma mesa de bar e fizemos o pedido tradicional -Filé com Fritas - prato padrão das crianças. A cidade estava vazia. Só uns poucos "treieiros" que arriscaram a entrar com suas motos no enrosco da chuva. A meninada feliz, tagarelava. Eu e o Zé tomamos uma cerveja com ar de dever cumprido e aquele sentimento de estar fazendo o bem. O celular? DESLIGADO!
Voltamos para casa pelo mesmo trajeto - a estrada que liga Nova Lima à Macacos. Chegamos em casa, a meninada meio molhada, foi para o banho quente e o pijama de flanela. Eu e o Zé ficamos gripados.
A mulher? - Balaio Trancado! Isso vai custar pelo menos dois domingos de almoço na casa da sogra...
Mas como se diz em Minas: "Foi bão tumém!"
Na segunda pela manhã fui trabalhar passando pelas poças de água da chuva, para ver se ajudava a ir soltando a lama...
Celso Travassos
celsotravassos@yahoo.com.br
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